Título: A Hora da Estrela
Autor: Clarice Lispector
Gênero: Romance
Lançamento: 1977
Idioma: Português
Páginas: 87
Editora: Rocco
Sinopse: A história da nordestina Macabéa é contada passo a passo por seu autor, o escritor Rodrigo S.M. (um alter-ego de Clarice Lispector), de um modo que os leitores acompanhem o seu processo de criação. À medida que mostra esta alagoana, órfã de pai e mãe, criada por uma tia, desprovida de qualquer encanto, incapaz de comunicar-se com os outros, ele conhece um pouco mais sua própria identidade. A descrição do dia-a-dia de Macabéa na cidade do Rio de Janeiro como datilógrafa, o namoro com Olímpico de Jesus, seu relacionamento com o patrão e com a colega Glória e o encontro final com a cartomante estão sempre acompanhados por convites constantes ao leitor para ver com o autor de que matéria é feita a vida de um ser humano. (Retirado do Skoob)
Avaliação: 3 estrelas
***
Confesso que quase larguei o livro nas primeiras vinte páginas, mas foi bom que eu não o tenha feito, pois perderia a oportunidade de ler um livro realmente interessante, embora ele tenha lá os seus defeitos. Na verdade, acho que o maior defeito do livro se chama Macabéa e, de alguma forma totalmente estranha, esse é o defeito que torna o livro tão bom. Pois é, pois é, esse é o efeito que Clarice Lispector tem sobre nós.
Mas, enfim, tentando explicar um pouco essa confusão... O fato é que Macabéa é uma jovem absolutamente sem-graça, que tem uma vida absolutamente sem-graça, que é contada por um autor absolutamente sem-graça, mas que juntando isso tudo com um pouco mais de sem-graceza (essa palavra existe? escreve desse jeito?) não se torna nada sem-graça.
O que acontece é que você sente ódio da Macabéa na maior - ou integralmente - parte do texto. Pelo menos, foi isso o que eu senti. Se você for uma pessoa meio sem-graça (desculpe a franqueza, é mal de Olímpico) cheia de paranoias de crise existencial talvez você possa se identificar com essa personagem tão sem sal e sem açúcar, e talvez você tenha uma leitura totalmente diferente da minha, que foi baseada no ódio que eu sentia pela forma como a personagem central se conformava com todas as coisas ruins que aconteciam com ela.
Mas isso tudo o que foi dito (escrito) é muito superficial se formos levar em conta a mensagem que o livro nos trás. Clarice nos mostrou de forma muito simples como seria a vida de uma pessoa invisível, conformista, com uma vida terrível, mas que consegue ainda assim continuar sorrindo. Macabéa não age, no momento em que a maioria de nós se levantaria e imporia as opiniões e planejaria o futuro e viveria a real beleza da vida. Ela apenas continua ali, conformando-se em apenas existir, escutando a porcaria da Rádio Relógio, sem fazer nenhum esforço para ser alguém importante.
Macabéa não idealiza um futuro, quando todos nós vivemos para isso, para o futuro e não para o que realmente está acontecendo ao nosso redor. Talvez a frustração que ela causa ao leitor seja porque ela faz tudo ao contrário, como se fosse exatamente tudo o que a sociedade nos impõe a não fazer. Nós crescemos sob a influência do futuro, estudamos e trabalhamos duro para isso e é incompreensível encontrar alguém que não faça o mesmo que todos.
Mas, é claro, o livro não é feito somente de Macabéa's. Há também o Rodrigo (nosso querido escritor), que é outro moço com um grande problema existencialista que quase faz com que o livro seja abandonado nas primeiras páginas de tantas vezes que ele diz que não sabe como começar a história. Se ele tivesse me pedido um conselho, antes de fazer essa besteirada de uma vez, eu poderia dizer apenas: comece essa p*rra de uma vez! No entanto, apesar de ser também um sem-graça, até mesmo o Rodrigo tem mais ânimo que a Macabéa, a loucura mais louca dele foi apenas se apaixonar por alguém que não existe, sua imperfeita Maca.
Mas, também, não é feito apenas de sem-graça's como um todo. Há o Olímpico, um malandro com a mão boba que andou matando alguns na velha Alagoas, mas que agora procura uma dama que não se pareça com a chata da Macabéa. Olímpico é delicado como um tijolo, mas apesar do que parece tem um coração enterrado abaixo de toda a armadura. É verdade que é meio grosso, mas todo mundo tem defeitos.
A Hora da Estrela não tem personagens cativantes, um romance épico ou um mistério instigante. São apenas personagens, romances e pequenos mistérios insignificantes. Nada que interesse tanto, nada muito complexo, e, no entanto... Ele espera por você para ser lido!
Adaptação cinematográfica de 1985.
Especial da Rede Globo de 2003.

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