Título: Crime e Castigo
Título Original: Prestuplenie i Nakazanie
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradutor: Paulo Bezerra
Lançamento: 1866 [originalmente]
Idioma: Russo
Páginas: 568
Editora: 34
Sinopse: Neste livro, Raskólnikov, um jovem estudante, pobre e desesperado, perambula pelas ruas de São Petesburgo até cometer um crime que tentará justificar por uma teoria: grandes homens, como César e Napoleão, foram assassinos absolvidos pela História. Este ato desencadeia uma narrativa labiríntica que arrasta o leitor por becos, tabernas e pequenos cômodos, povoados de personagens que lutam para perservar sua dignidade contra as várias formas da tirania. (Retirada do Skoob)
Avaliação: 5 estrelas
***
Crítica
Esse é daqueles livros que te deixa, literalmente, de boca aberta.
Crime e Castigo não é apenas um livro sobre homicídio e suas consequências, é um livro sobre a lucidez da loucura e sobre as artimanhas arquitetadas pela mente humana. Raskólnikov, o personagem central da trama e autor do dito homicídio, é um labirinto de possibilidades. As nuances desse personagem são tantas que fica até difícil a descrição em palavras, a não ser, é claro, que você seja Fiódor Dostoiévski e tenha completo domínio perante estas nobres companheiras dos literatos. Raskólnikov é um intelectual, um louco, um idealista, um nobre, um niilista, um miserável, um covarde, um calculista, um arrependido, um erro, uma infinidade de alegorias.
O livro se inicia com uma caminhada sem rumo de Raskólnikov que acaba o conduzindo a uma taberna, onde ele conhece o ex-funcionário público Marmieládov, um bêbado miserável que senta-se em sua mesa e, de uma hora para outra, começa a lhe narrar toda a sua história de vida (fato que não faz sentido a princípio... repetindo, a princípio). Já nesse início é possível de ser perceber que essa narrativa ainda vai possuir muitas reviravoltas. No decorrer do livro durante vários momentos nós temos a narrativa intercalando entre o protagonista e outros personagens que aparecem durante a narrativa apenas para nos instigar mais, entre eles Razhumíkin (ex-colega de universidade de Raskólnikov) e Svridrigáilov (que já é outra história...). Essa divergência de pontos de vista só contribui para enriquecer a narrativa e esclarecer pontos fundamentais da história, onde são plantados outros mistérios e reviravoltas que são capazes de te prender até o final da história.
É impossível de se ler Crime e Castigo sem se pegar completamente fascinado pelas absurdas teorias de Raskólnikov (e dos outros tantos personagens). A mais famosa, e que é a responsável pelo regimento de todo o livro, é a "teoria do homem extraordinário", que tem como ideia central a de que homens como Napoleão (e Raskólnikov é particularmente fascinado por este) passaram por cima de conceitos há muito pregados na nossa socidade e que foram absolvidos destes pelos atos que vieram a consumar posteriormente. Na prática, ele dizia que um homem (da classe dos "homens extraordinários") poderia praticar atos considerados errados - e ou - cruéis (como matar, por exemplo) e depois recompensar a todos com os benefícios que aquilo traria. Mas é claro que essa privilegiada casta dos "extraordinários" era consideravelmente pequena e que a maior parte do 'rebanho' terrestre é, na verdade, de indivíduos "ordinários", ou seja, que existem apenas para dar continuidade a linhagem do homem até que venha a existir um homem "extraordinário".
Raskólnikov, obviamente, considerava-se um homem "extraordinário", e por isso, sua maior preocupação depois de cometer o crime não era causada por um possível arrependimento, mas sim pelo seu medo de ser descoberto. Mas dizer que Raskólnikov é apenas um jovem perturbado, com pouco dinheiro e muita inteligência é um pouco vago. O caráter do personagem é algo que, por diversas vezes, se torna questionável. É natural de se pensar que uma pessoa que matou outra só pode ter lados ruins, mas Dostoiévski consegue nos mostrar que, apesar do fatídico momento macabro protagonizado pelo rapaz, ele é sim capaz de muitos atos totalmente opostos e com intuito benevolente.
Personagens
Raskólnikov, ou Ródion Romanovitch, ou tantos outros nomes que aparecem para designar esse mesmo personagem, é, como já foi possível de se perceber, o personagem principal e talvez o mais fantástico (de todos os tantos fantásticos) personagens deste livro. Ele é hipocondríaco, passa a maior parte do tempo doente (o que, de verdade, trás uma aura singular a todo esse caráter sombrio do livro), aprecia a solidão, não gosta muito de falar e não costuma prestar atenção na fala dos outros. Irritadiço, um pouco insano e excessivamente inteligente. Não costuma beber, e não é particular apreciador da libertinagem, mas não costuma julgá-la, de fato. Tem um caráter forte - e como já dito - questionável, visto que ele foi capaz de matar uma - duas - pessoa (embora esse fato se mostre tão mais amplo no decorrer da obra) e ainda assim doar enormes quantias de dinheiro (que ele mesmo precisa) para pessoas mais necessitadas.
Razhumíkin, ou Dmitri Prokóvith, é um jovem que, assim como Raskólnikov, abandonou a universidade por falta de recursos. Razhumíkin é, provavelmente, o personagem que mais me encantou na história e não porque ele seja o estereótipo perfeito de príncipe encantado, mas porque ele é o estereótipo perfeito do que é um ser humano. É um rapaz com fortes princípios, idealista, leal e (até onde é possível) responsável, mas com um grande fraco pela bebida que ele luta para controlar.
Sônia, ou Sófia Semeónovna, é filha do ex-funcionário público Marmiéladov e é levada a se embrenhar em um mundo duvidoso para conseguir o sustento da família. É descrita como uma jovem mocinha franzina, muito tímida, não especialmente bonita, mas capaz de chamar atenção de muitos homens. É dedicada e fortemente ligada a Deus (fato que chega a incomodar o protagonista em dado momento da história).
Dúnia, ou Avdótia Romanóvna, é a irmã mais nova de Raskólnikov. É uma jovem inteligente e decidida que se muda com a mãe para São Petersburgo depois de arranjar casamento com um senhor a quem o irmão não demonstra particular simpatia. Trabalhou como governanta enquanto estava no interior e foi vítima de uma acusação envolvendo o marido de sua patroa, da qual foi posteriormente abssolvida.
Svidrigáilov é um homem misterioso que acabou de perder a esposa - que era, no caso, a antiga patroa de Dúnia - de forma um tanto trágica. Ele chega em Petersburgo um pouco depois da irmã de Raskólnikov e suas intenções são um prato cheio que entrete o leitor até os últimos instantes.
Piotr Petrovich é um homem de negócios que se oferece para casar com Dúnia depois que acontece um escândalo envolvendo o nome da mesma na cidade onde antes residia. (Particularmente odiável este personagem, diga-se de passagem)
Catierina Ivanóvna é a esposa de Marmiéladov. É tísica (tuberculosa) e mãe de três crianças pequenas (além de fazer as vezes de mãe para sua enteada Sônia). Vive delirando, mas, apesar de tudo, nota-se ser uma pessoa de caráter nobre.
Nota¹: Desculpem-me se algum nome estiver escrito errado (sabe, o russo ainda me confunde).
Conclusão
Dentre tantas coisas, Crime e Castigo é também um prato cheio em se tratando de crítica social. A grande parte dos personagens do livro vive em condições de extrema pobreza, fato que Dostoiévski sabe expressar com inigualável mestria. As descrições de ambiente são espetaculares e trazem o estado psicológico dos personagens impregnado. Enquanto você percorre os olhos pelas linhas que descrevem o cubículo abafado de Raskólnikov é como se estivesse percorrendo os olhos pelo constante estado de sufocamento expressado pelo personagem por se encontrar em uma terrível encruzilhada.
Por fim, Crime e Castigo é indicado para quem aprecia a exploração do estado psicológico dos indivíduos, intensas críticas sociais e, acima de tudo, uma boa leitura.
Au revoir!

VITORIA,
ResponderExcluirsou seu mais novo seguidor.
Você fez uma resenha, absolutamente competente e correta desta monumental obra de Fiódor Dostoiévski e obra maior Crime e castigo.
Perdoe a frase, mas quem não leu, não leu nada!!!
Tem todos os enfoques desde uma critica social competente aos tratos magistrais dos estados psicológicos de todos nós.
Parabéns pela escolha!
Um abração carioca.
VITÓRIA,
ResponderExcluirinegavelmente,um dos melhores livros que já lí.
Parabéns pela excelente e fiel resenha.
Um abração carioca.